The Post: A Guerra Secreta | Crítica

Spielberg entrega uma profunda reflexão sobre os deveres da mídia

13 fev 2018

Foi-se o tempo em que a população enxergava as guerras como uma luta simples e maniqueísta do bem contra o mal. Influência, investimentos, política, tudo que envolve a guerra segue nebuloso para nós, civis, até o dia de hoje.

The Post– A Guerra Secreta é um filme de guerra onde a batalha em si é pelo direito de informar. No longa, na década de 70, o até então jornal local The Washington Post é liderado por Kat Graham (Meryl Streep), e está abrindo seu capital na bolsa, para que assim arrecade dinheiro de investidores e ganhe novo fôlego. Ao mesmo tempo, vazam documentos secretos sobre a sombria atuação do governo americano na Guerra do Vietnã. O grande The New York Times publica a notícia, e não demora para que o presidente Nixon reúna esforços para calar a imprensa e evitar uma crise no governo. Um juiz então concede uma liminar para que os jornais não tenham o direito de publicar segredos de guerra. O problema é que em meio a esse fervor, Ben Bradlee (Tom Hanks), editor chefe do Post, tem acesso a esses documentos, e luta para convencer Kat e todos no jornal do valor da luta pelo direito de publicar e pela liberdade de imprensa.

O cenário burocrático em que o filme se encontra poderia gerar uma história bastante fria e com pouco da emoção sempre criada por Spielberg, e essa frieza está presente apenas no começo, enquanto o diretor coloca as peças na mesa. Após isso, Meryl Streep dá um show em mais uma de suas atuações indicadas ao Oscar. Interpretando Kat, a atriz entrega exatamente a insegurança e a anulação inicial sofrida por uma mulher na década de 70. Um mundo regido por homens, onde uma mulher tem pouco poder de decisão até sobre a própria vida. E dentro de sua sutileza, Meryl faz sua personagem soar quase como uma prisioneira, incapaz de imprimir suas vontades na sua própria empresa.

Em um mundo tão polarizado quanto o de hoje, trazer à tona uma história tão poderosa sobre segredos de governo de um país cujo momento político é tão conturbado não é tarefa fácil. A direção então tira o governo do foco, e promove prioritariamente a discussão sobre a importância da informação. E quando Spielberg escolhe Tom Hanks como o porta-voz dessa mensagem, é claro que o trabalho fica mais fácil. A atuação de Hanks consegue inserir na burocracia da situação a emoção que faltava, a torcida para que o jornal publique a matéria.

Na era da desinformação do século 21, olhar para o século passado e enxergar o esforço de um meio de comunicação pré-internet para publicar uma história é inspirador, e joga luz em um grande problema dessa geração de jornalistas: a falta de credibilidade.

Como citado no filme, a informação deve servir aos governados, não aos governantes.

 

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