American Crime Story: O Povo contra O.J Simpson | Crítica

03/04/2018 às 14:57hs

American Crime Story dedica-se a narrar acontecimentos reais e chegou ao telespectador trazendo o julgamento do século, O Povo contra O.J Simpson.  Hoje abro uma exceção e lhes aviso que haverá spoilers, coisa que é bem rara nas minhas críticas, porém aqui se faz necessário para que todos entendam o contexto da série.

O. J Simpson (Cuba Gooding Jr.) foi um dos maiores jogadores de futebol americano da história, sua fama ultrapassou todos os limites imagináveis para um jogador, o cara era tão famoso que teve a fuça estampada em filmes e propagandas tornando-se um dos poucos negros bem sucedidos para a época. E não, não é preconceito dizer isso, é um fato de alta relevância.

O preconceito é algo presente até demais nos Estados Unidos, não muito mais presente do que em outros lugares, mas ele é notável e explícito principalmente dentro de instituições públicas. Houve um tempo em que o país passou por uma maré absurda de violência gratuita e completamente desnecessária contra os negros.

O caso datado de 1994 relata o assassinato brutal de Nicole Brown e um rapaz em sua casa. A cena era digna de um filme de terror e deixou bem claro que quem tivesse cometido o crime, fez apenas para se livrar de suas vítimas, até porque não havia sinal de invasão, assalto ou algo do tipo. A polícia ao contatar O.J para dar a notícia do assassinato de sua ex esposa, notaram que o assassino se feriu durante o crime, que ele era canhoto e que havia sangue no carro do jogador, que não estava em casa no momento.

A polícia conseguiu localizar O.J pelo telefone e, mais uma vez coisas estranhas aconteceram. Ao ser notificado sobre a morte da ex esposa, ele nem se quer perguntou o que havia acontecido com ela. Ao voltar à cidade, os procedimentos padrão foram executados e, durante o interrogatório O.J deu respostas confusas, imprecisas e vagas o que contribuiu para se tornar o suspeito principal na visão da promotora Marcia Clark (Sarah Paulson). Também foi levado em consideração que em várias ocasiões, a polícia havia sido acionada por Nicole relatando agressões vinda de O.J na época em que ainda eram casados. E, como se isso não bastasse, O. J possuía um ferimento na mão esquerda que não sabia explicar como o tinha feito. O kissuco ferveu.

A medida que os exames da cena do crime iam chegando, as evidências apontavam cada vez mais para O.J e ficava cada vez mais difícil criar ou encontrar algo que não o colocasse na cena do crime, diante disso foi expedido o primeiro pedido de prisão conta o astro. Sem saída aparente, o advogado de O.J Robert Shapiro (John Travolta), negociou com a polícia para que o astro se entregasse, porém o astro teve um surto. Fez um testamento, deixou uma carta para uma galera estranha e disse ao seu amigo Robert Kardashian (David Schwimmer) que o suicídio era o jeito mais fácil dele lidar com todos os acontecimentos. Com o drama queen de O.J, seus advogados cederam a pressão, dando vasão à fuga do astro.

O.J já tinha tudo em mente, entrou no carro de seu amigo munido de uma arma carregada, passaporte, roupas, maquiagens, barbas falsas e iniciou “a corrida de sua vida”. Depois de muita negociação, ele foi para a casa de sua mãe e lá se entregou à polícia. Até esse momento tudo estava favorável à condenação do astro, tudo estava escancarado e encaminhado para que a justiça fosse feita em respeito as vítimas daquele horrível assassinato. O barato foi tão louco e tão cruel que a promotoria chegou a cogitar a ideia da pena de morte.

Foi aí que Robert entrou no embalo de sábado à noite criou uma estratégia completamente apelativa para livrar O.J da condenação. O advogado passou a alegar que isso era um esquema da promotoria era uma conspiração contra o jogador só pelo fato dele ser negro. Como suporte, Robert montou um time de peso para juntar evidências a favor de O.J, e foi ai que Robert cantou “You Are The One That I Want” para uma figura de peso, o advogado Johnny Cochran (Courtney B. Vance), que era um líder na mobilização a favor dos negros.

A série vira de cabeça pra baixo a partir desse acontecimento. O telespectador consegue ver preconceitos aflorarem em grande escala, de um lado temos o racismo usado como defesa para uma pessoa nitidamente culpada e do outro o machismo, apenas por que quem estava acusando uma estrela do futebol e um ícone de sucesso absoluto era uma mulher. Marcia atuou em todo o processo amarrada apenas na ideia de obter justiça para a família das vítimas e, mesmo sendo hostilizada e atacada só por ser uma mulher, a advogada manteve o profissionalismo.

Como se não bastasse ser o maior julgamento do século, a seleção do juri não ficou para trás, sendo considerada mais um recorde. Durante a seleção a defesa conseguiu manter a linha esperada, selecionando um número considerável de pessoas negras, homens e mulheres. A acusação concordou com a seleção com a esperança de que as mulheres negras se sentissem sensibilizadas com a vítima mediante à tantas acusações de violência doméstica.

Veja bem, bater na tecla do racismo toda hora não é chatice minha, é o que a série se dispôs a televisionar, até porque o fato dos advogados de O.J conseguirem desviar a atenção do homicídio para a questão do racismo não é atoa, já que era uma questão muito forte e presente da época, o que se dava muito por conta do comportamento policial que nunca iriam imaginar que suas atitudes descabida seria uma bela e grande injeção na testa do governo.

Pouco antes do veredito final, Marcia faz um discurso sensato usando as evidências que apontavam que o astro era o real assassino, incluindo um fio de cabelo encontrado na roupa de uma das vítimas. Do lado da defesa, os advogados de O.J fizeram um discurso completamente emocional apelando para a única prova a favor do réu, a luva que não serviu.

A resolução do caso foi mais rápida que o Flash, o que só acentuou, mais uma vez a divisão racial que ficou imposta em todo esse processo judicial. Todos os negros votaram na inocência de O.J, enquanto a minoria branca foi unânime na culpa do réu que, obviamente foi inocentado.

Não há como se sentir satisfeito com o desfecho, já que um tempo depois, O.J Simpson foi preso novamente por outras acusações, mostrando que não era esse cara bonzinho e do povo que todo mundo acreditou que ele era. Outro ponto extremamente positivo é a atuação impecável de Sarah Paulson, ela mergulhou tão fundo na personagem que acabou se tornando a verdadeira protagonista da série, tirando a atenção dos dois grandes atores John Travolta e Cuba Gooding Jr.

 

O que a gente tira de tudo isso? Que nem sempre se pode confiar nas entidades públicas ou no julgamento do povo. Também fica o aviso para mostrar que a justiça pode e foi sim danificada pelas ações policiais da época que corromperam drasticamente a imagem da instituição permitindo que o racismo tomasse a proporção que tomou.

Mesmo após mais de 20 anos do caso, a série trouxe à tona novos fatos, permitindo que que O.J Simpson confessasse o crime no programa da Oprah dando um belo tapa na cara da sociedade que, na época berrou a plenos pulmões a sua inocência.

American Crime Story é uma série que instiga, que vicia e que prende. Atualmente ela está na sua segunda temporada narrando um outro escândalo que eu volto pra contar depois. O Povo contra O.J Simpson está disponível na Netflix.