As expectativas e os acertos de Game of Thrones

O final que não parece final de Game of Thrones

22/05/2019 às 13:56hs
Jon Snow e Daenerys em cena final de Game of Thrones

Não existe vilão maior pra qualquer história do que a expectativa. Sempre que se constrói uma narrativa em volta da preparação de um desfecho grandioso, espera-se que esse desfecho cumpra seu papel e entregue um resultado tão grandioso quanto sua preparação. Ao contrário do que já aconteceu esse ano com Vingadores: Ultimato (que atingiu e superou expectativas), Game of Thrones deu à sua história um final justo, mas muito anti-climático e até decepcionante para parte dos fãs.

É óbvio que essa noção de entrega de resultado parte da percepção de cada expectador, cada fã que acompanhou 8 temporadas inteiras à espera da conclusão tão impactante quanto vários momentos da série. À partir do 6º ano, a produção passou a sofrer com as críticas de que estariam guiando a trama por um caminho novelesco e cheio de clichês, e nós já falamos sobre isso aqui, quando eu defendi os caminhos da série.

Eu devo confessar que mesmo agora, ao final de tudo, ainda entendo as escolhas dos roteiristas e a maioria dos desfechos dos personagens, mas sabendo que a história se concluiu, posso compartilhar o que me frustrou e o que me satisfez aí final dessa história.

[ATENÇÃO: SPOILERS A FRENTE]

Frustrações

Jon Snow encara o Verme Cinzento em cena de Game of Thrones

O desafio, como já deu pra perceber acima, não era dos mais simples, e a série falhou em pelo menos uns 30% do que era essa tarefa. Fechar personagens bem resolvidos e com arcos mais completos é bem mais fácil do que finalizar a história de quem sempre esteve com o protagonismo e ficou com toda a expectativa. Jon Snow é de longe o maior problema desse final, já que a sua “segunda chance” (quando morreu e ressuscitou) deveria ter lhe ensinado lições mais importantes, como ser menos emotivo em suas ações. Além de não ter aprendido nada, João das Neves quase perdeu a Batalha dos Bastardos, não elaborou uma estratégia na batalha contra os White Walkers e assistiu calado a invertida criada por Daenerys contra o exército de Kings Landing.

Como se não bastasse, o cara ainda precisou ser sacudido por todos após o massacre promovido por sua amada para entender que ela precisava ser parada por ele. E até aí, o problema está só no desenvolvimento do personagem. Após isso, a escolha dos roteiristas é diametralmente oposta ao que foi criado por eles com a origem real de Jon. A descendência Targaryen e o direito ao trono foram completamente apagados e esquecidos, relegando o personagem ao esquecimento na muralha, novamente , como quando ainda era bastardo.

Não, eu não gostaria de ver alguém de estratégia tão fraca comandando os sete reinos, mas o personagem merecia, no mínimo, um descanso pacato em Winterfell.

Já Daenerys teve um final agridoce, mas condizente com a sua construção, que flertava com seu delírio de poder em vários momentos, e tem no diálogo entre Tyrion e Jon a melhor explicação possível, quando o primeiro observa que ninguém achava Dany uma tirana quando ela torturava homens maus, mas já havia tirania ali.

Daenerys Targaryen encara o Trono de Ferro

Porém, a curva final da Targaryen rumo à catástrofe foi tão rápida que fez que as pessoas esquecessem que a construção estava indo nesse caminho. A maior parte do ódio e rejeição de parte dos fãs pelo final está na conclusão dada à personagem, e é bastante compreensível, embora alguns sinais estivessem lá.

Justiça poética

Tyrion Lannister com olhar triste em Game of Thrones

O final, porém, não foi feito só de erros. Alguns personagens da série são especialmente importantes e foram, por muito tempo, o coração da história. Peter Dinklage é um show a parte como Tyrion desde o princípio (meu personagem favorito), e o final não poderia ser mais justo com o personagem que mais se dedicou a dar um caminho bom para os reinos, e que pagou caro por suas ações e pelos seus erros.

Ser escolhido por Bran como a Mão do Rei mostra como a visão política do personagens e seu senso de justiça seguem os mesmos de sempre, e ele se tornou alguém digno de tal cargo aos olhos de todos.

Bran, Arya e Sansa Stark sentados lado a lado durante reunião do Conselho em Game of Thrones

Já o próprio Bran foi uma escolha inusitada, mas uma cartada de mestre da história para finalmente quebrar o sistema político que existia até aquele momento. Líderes devem nascer da diplomacia e da análise sensata das possibilidades (não que a série seja exemplo disso), e não de guerra e conflito de sangue. Era assim que Westeros vinha sendo governada, e continuaria assim caso o trono fosse ocupado por Dany, Cersei ou Jon. Somente alguém de fora daquele sistema teria autenticidade para ser a mudança.

Arya Stark é outro dos pontos altos de toda a série, e termina seu arco se libertando de suas missões, e se desafiando a ir ainda mais além do que já havia. Arya é uma personagem pronta e forte a pelo menos umas 3 temporadas, e ainda assim nos surpreende por seu senso de aventura e de jornada. Junto com Tyrion, Arya Stark foi o coração se GoT, e merece inclusive uma série derivada (façam acontecer).

Arya Stark no navio no final de Game of Thrones

Obviamente, Game Of Thrones não teve nem de longe a grandiosidade que era esperada para o final, mas fugiu da maioria das incoerencias, dando sentido a suas escolhas finais. Isso, porém, não tira a série da estranha lista das grandes obras televisivas com o final ruim (How I Met Your Mother, Dexter, Lost…). Mesmo assim, não podemos deixar que o final fraco apague o marco e a importância que a série teve para mudar para sempre a TV, levando pras telinhas o orçamento das telas gigantes. Nos resta agradecer e torcer que a série inspire o futuro não pelo seu desfecho, mas por sua grandiosidade e por sua jornada.

VEJA O TRAILER DA 8ª TEMPORADA DE ‘GAME OF THRONES’

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