Crítica | A Maldição da Residência Hill

22/10/2018 às 10:40hs

A Maldição da Residência Hill, nova série de terror da Netflix, já nos primeiros episódios esconde o que realmente há de melhor nesse novo item do imenso catálogo disponível. Os sustos e a quantidade de monstros espalhados não fazem jus à verdadeira intuição e ao drama impactante que a história da família Crane tem pra nos contar. Com apenas dez episódios, de aproximadamente 70m cada um, o seriado descompacta a relação de uma família completamente atormentada por uma assombração, mas como todo derivado do quesito terror, utiliza todos os espíritos como possíveis ferramentas para explicar a relação complexa daquela família.

Mike Flanagan criou uma atmosfera que faz o público entenda a relação tensa entre os personagens ao mesmo tempo em que ele sinta o impacto de todas as aparições sobrenaturais. Os sustos espalhados pelos episódios não estão ali para causar medo e sim, para compor a maldição residente na Residência Hill. E o grande e mais prazeroso trunfo da série é justamente esse, construir ao redor da família Crane e da Residência Hill um clima que foge completamente dos clichês tradicionais das séries do gênero, tornando a história única mediante ao uso do conteúdo sobrenatural apenas como enfeite e não como instrumento para causar medo.

Entre idas e vindas no tempo dos personagens, a série conta a história da família Crane, liderada por um pai engenheiro e uma mãe arquiteta, contando com mais cinco filhos ainda crianças que ficam completamente encantados com a nova casa. Ao longo do tempo a mãe, Olivia (Carla Gugino), se envolve com os fantasmas da residência e começa a alucinar. Nesse meio tempo, o público acompanha o futuro, com todos já adultos tentando sobreviver após uma noite trágica dentro da Residência Hill. A oscilação da linha temporal dos personagens causa uma ansiedade para saber o que realmente aconteceu naquela noite e, felizmente o roteiro não se apega apenas a isso, ele foca em quais são as consequências da maldição no futuro.

A série não se agarra nos ganchos no final de cada episódio, em A Maldição da Residência Hill cada episódio possui um arco próprio e dentro dele questões são respondidas sem necessitar de uma continuidade, mas isso também não impede que o interesse óbvio pelo desfecho final despareça, ao contrário, isso só faz com que o público se mantenha firme até o fim. Vale ressaltar de que a série tem plena consciência de que a história é muito mais importante do que os sustos e os mistérios temporários, o drama da família junto à construção dos dilemas individuais dos personagens Steve (Michiel Huisman), Shirley (Elizabeth Reaser), Theodora “Theo” (Kate Siegel), Luke (Oliver Jackson-Cohen) e Eleanor “Nell” (Victoria Pedretti) abraçam o público até o ultimo e incrível episódio.

A atuação do elenco ganha méritos com os diálogos poéticos próximo ao desfecho de toda a trama, mesmo que soe clichê esse fato cai como uma luva na medida em que Flanagan eleva a interação dos personagens, onde em um único capítulo temos visões diferentes de toda a história. O que leva o público a construir um elo de empatia com os Crane e, ressaltar de que existem pouquíssimas séries originais da Netflix que aproveitam de maneira positiva o gênero em questão.

A Maldição da Residência Hill é, na verdade, um belíssimo e profundo drama familiar, onde os elementos de suspense e terror sobrenatural estão ali apenas para edificar uma atmosfera prejudicial entre os cinco irmãos e um pai ausente, onde os instantes de horror e tensão não passam apenas da representação mais profunda dos sentimentos mais obscuros dos personagens.

Por mais que o cartaz e o trailer passem a imagem de que é uma série que transborda horror, a produção em questão passa bem longe de causar arrepios. Aqui todo e qualquer tipo de elemento sobrenatural é a mais pura representação dos sentimentos mais naturais que o ser humano possui: a dor e a mágoa. Os rompantes de terror são adicionados cuidadosamente quando os protagonistas estão sucumbindo ao clímax do seu pleno sofrimento. A casa mal assombrada, os espíritos, são representados como a própria culpa, o lamento e os seus maiores medos encarnados.

A jornada apresentada por Flanagan é contada em uma atmosfera de completo suspense banhada no medo se realmente se aproximar da vida real, com os problemas do dia-a-dia e que, com um toque de ficção se torna o clichê da casa amaldiçoada e dos fantasmas que residem nela.  A Maldição da Residência Hill é emocionante na medida certa, sua força está nos medos e traumas do passado, nos questionamentos acumulados ao longo da vida e que muitas vezes são representados por fantasmas insignificantes servindo para uma luta pela qual evitamos.

No fim das contas, entende-se que os fantasmas reais são apenas escolhas. Aqui, as piores delas.

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