Crítica | IT: Capítulo Dois

Mudança de gênero salva filme de um final "meh".

06/09/2019 às 13:27hs
Palhaço Pennywise em destaque.

Para quem já teve algum contato com a obra de Stephen King, é fácil notar o costume que o escritor tem de finalizar suas histórias com elementos fantásticos e soluções inimagináveis (e nem sempre isso sai bem). É com essa informação que devemos começar a entender as escolhas de IT: Capítulo Dois.

Na trama desse final, o Clube dos Otários precisa retornar à cidade de Derry para combater os novos ataques de Pennywise (Bill Skarsgård), 27 anos após os eventos do primeiro filme. Agora adultos, precisam revisitar antigos traumas e problemas para reunir forças na luta contra o palhaço do capiroto.

Elementos da nova adaptação

O livro que dá origem aos filmes tem inúmeros momentos chocantes, violentos e fortes, e assim como no primeiro, essa sequência não evita reproduzi-los, incluindo a polêmica cena que abre o filme, que também está na obra original.

Porém, pra adaptar da melhor forma possível, sem tirar o impacto e, principalmente, sem transformar o final em algo sensivelmente ridículo, Andy Muschietti (também diretor do primeiro) decide tirar um pouco o pé do terror e investe na aventura em grupo nos moldes revividos por Stranger Things. Com humor, descompromisso e o uso de mais jump scares que o primeiro, o filme se torna autoconsciente do que está tentando evitar.

Personagem Beverly olhando uma foto antiga.
IT: Capítulo Dois – 2019

Quando se conhece o final do livro ou mesmo do filme original de 1989, fica bem fácil entender a razão de não deixar que este filme final se leve a sério demais. Se esse fosse o caso, a revolta do público que está sendo apresentado pela primeira vez a esse desfecho seria muito grande.

Desfecho da Trama

Mais uma vez a produção acertou no elenco, que têm em suas versões adultas interpretações bem encaixadas com seus “eus” infantis. O destaque vai para Richie (Bill Hader) e para Eddie (James Ransone), mas todos do elenco principal prestam bem seus papéis.

Elenco principal adulto.
IT: Capítulo Dois – 2019

O filme consegue contornar seu maior desafio: o de suavizar sua trama para preparar terreno para o terceiro ato despirocado do palhaço. Isso é feito com mais do que só humor, mas também com autor referência, tanto no relacionamento com o filme anterior, quanto com a obra do autor. Stephen King, aliás, está no filme reforçando uma piada sobre a sua carreira e, na história, a carreira de Bill (James McAvoy) como escritor. A fama de escrever finais ruins persegue o escritor, e aparece aqui pelo menos 4 vezes na boca dos personagens, talvez fazendo a metalinguagem do final que poderia não conversar com o restante da trama.

Leia mais: IT 2 e o retorno de Pennywise

Mesmo contornando esse problema, Muschietti cai na própria armadilha da auto referência e estende demais o que já havia funcionado para seu propósito. Ao longo do filme, os protagonistas enfrentam individualmente Pennywise através de seus medos, e boa parte das 2 horas e 50 de filme se desenrola em torno disso. Quando chega no terceiro ato, o diretor não só repete a fórmula, como a estica ao limite do suportável, tirando muito o impacto e interesse pela situação.

Após o desfecho, o filme ainda perde um tempo maior do que necessário para estabelecer seu final, tornando a experiência um pouco (pouco mesmo) cansativa.

No fim das contas, It: Capítulo Dois cumpre seu papel na tarefa de encerrar em grande nível a história do palhação do mal, fugindo do ridículo fora de controle em que poderia cair, e a mudança de gênero salva o final por isso. Porém, o esticamento do desfecho não só diminui a qualidade do filme, como também trai, em parte, a qualidade do primeiro. Em tradução: tá bem legal, mas podia ter sido foda.

Confira o Trailer:

IT: Capítulo Dois | Trailer

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