Crítica | Logan

02/03/2017 às 00:30hs

Quadrinhos são obras difíceis de adaptar. Elas envolvem humor, situações absurdas e às vezes, uma violência desmedida, difícil de adaptar para o grande público. Wolverine sofreu muito com isso. Com alguns lampejos de sua brutalidade e fúria ao longo desses 17 anos no cinema, o carcaju de Hugh Jackman nunca foi representado da forma que o fã gostaria.

O maior empecilho para as adaptações do personagem é/era a violência. Lâminas que perfuram, decepam e decapitam nos quadrinhos, mas que, para serem exibidas na tela grande, teriam que optar por ganhar menos dinheiro, tirando as crianças do cinema.

Há anos atrás, quem diria que um estúdio teria a audácia de fazer um filme para maiores. Isso significa tirar os heróis de quem eles mais impressionam: crianças. Além disso, nenhum estúdio via além da grana. Bom, a Fox resolveu ver, e isso é resultado de Deadpool, já falamos sobre isso aqui.

Logan muda completamente a nossa visão do que é o Wolverine logo de começo. A respiração pesada e o ar de desesperança do protagonista mostram que esse não é o herói que vimos em outros filmes. A história aqui é outra, com outras repercussões, outro Logan. Ainda bem.

Se nos longas dos X-Men vimos muito mais cor, o vermelho é a cor que se sobressai aqui. Sangue, muito sangue, do tipo que só aquelas garras podem arrancar. Desde o início, as cenas de ação arrancam acenos com a cabeça em afirmação: finalmente, o verdadeiro Wolverine no cinema.

A ambientação é pós apocalíptica, mas o mundo não acabou para todos, talvez só para a maioria dos mutantes. Eles se tornaram lendas, e os que estão vivos são caçados como animais. É interessante também, ver a homenagem aos quadrinhos feita no filme, com a aparição de uma HQ e a interação com ela. Ninguém tem vergonha de admitir a origem da história, e homenageiam isso com gosto, e violência.

Mas para todas as doses de violência há um respiro, mesmo que dentro do drama. Vemos aqui Patrick Stewart (Xavier) e Hugh Jackman (Logan) em sua melhor forma. Ofilme traz um senso de importância a cada um deles, e discussões não feitas antes pelos filmes dos mutantes. A família é um tema recorrente dos quadrinhos da equipe, mas que ficou de fora de boa parte dos filmes, e aqui, o diretor James Mangold entende perfeitamente as motivações pelas quais Logan foge disso. Apesar de seu fator de cura, algumas cicatrizes nunca vão sair do mutante com garras.

Dafne Keen  (Laura/X-23) é incrível em seu papel. Entrega uma atuação intensa, e cativa desde o começo, mesmo com toda a sua violência e brutalidade. Apesar do olhar doce, Dafne entrega uma X-23 adulta nas horas certas, mortífera quase sempre, mas capaz de curar as feridas mais profundas do carcaju.

Não temos aqui uma relação mestre/pupila, mas sim o esperado encontro de Logan com seus demônios. Ser “pai” de uma criança tão parecida com ele o faz reviver novamente todas as angústias de ser essa máquina de matar. Laura também, e Logan quer fugir da responsabilidade de tentar mudar o futuro de sofrimento que espera pela garota. A química entre os dois é perfeita.

Não é um filme sobre fuga, apesar de ter isso na maior parte do tempo. A única fuga que importa aqui é a de Wolverine de sua vida, da maldição de ser imortal e ver a morte de todos aqueles a quem ele se apegou. Mais uma vez, Jackman entrega uma atuação impecável, dura, intensa, sofrida, como o velho Logan exige.

A negação constante do personagem, desde o início é compreendida. Aliás, se sente desde o primeiro minuto que esse Wolverine está cansado de lutar, cansado de causar dor, e principalmente, cansado de ser o herói. Mais uma discussão válida: o que se tornam os heróis quando não podem mais lutar?

As ameaças ao grupo surpreendem positivamente. Nada de vilões carnavalescos e poderes complicados. De complicado aqui, basta a dificuldade do protagonista de lutar contra si mesmo, na luta para ser de novo o herói que já foi uma vez, mesmo que a contra gosto.

Logan é um filme isolado, fechado, bonito. É uma saudação bonita a todo o legado do carcaju nos quadrinhos e no cinema, e também uma grande homenagem ao que Jackman dedicou ao personagem nesses 17 anos. O filme não é perfeito, dificilmente seria. Mas com certeza é um marco, por conseguir trazer toda a carga e explosão de emoções diferentes que Wolverine poderia proporcionar todo esse tempo. Sangue, suor e lágrimas, fecham-se as cortinas. É uma pena que esse seja o fim de uma era, e não o começo de outra para esse Logan.

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