Raio X | Como um filme pode ser irresponsável

Alguns críticos consideraram o novo longa do Coringa "irresponsável", será mesmo?

19/09/2019 às 21:49hs
Personagem coringa em destaque.

Coringa ainda nem chegou aos cinemas, mas vêm sendo um dos assuntos mais discutidos nas últimas semanas. A crítica especializada têm dito em grande número que o longa é grande candidato às premiações do ano que vem, exaltando a trama, a direção de Todd Phillips (Cães de Guerra) e a atuação de Joaquin Phoenix (Ela).

Porém, houve quem acusasse o filme de ser irresponsável em seu discurso, por mostrar as injustiças vividas pelo personagem e usá-la para justificar e até naturalizar suas ações. O longa ainda não estreou, e portanto não me cabe meter o bedelho na discussão específica sobre ele, já que não o assisti. O que quero fazer aqui é tentar responder a uma questão mais geral: uma obra pode ser irresponsável?

Num primeiro momento, a tendência é que a gente associe essa ideia toda à liberdade que as pessoas precisam ter para criar, e eu concordo totalmente com isso e não acredito que a censura seja o caminho para obras responsáveis. O problema real da coisa não tá na história que está sendo contada, e sim no discurso que o diretor coloca no subtexto.

Um exemplo clássico desse tipo de abordagem está em Laranja Mecânica, adaptado ao cinema pelo mestre Stanley Kubrick. O estilão meio brusco do diretor é uma de suas marcas principais, mas que pode abrir interpretações diametralmente opostas. Ao assistir ao filme de 1971, ficou claro pra mim que a intenção do diretor era escancarar a violência gráfica como forma de expor o quanto os criminosos podem ser cruéis e frios, e como a lei pode ser abusiva até em casos como esse. Em outras palavras, o filme discute a natureza podre e violenta da sociedade, e faz isso por meio da chocante e perturbadora violência empregada pelo grupo de Alex DeLarge.

Personagens principais vestidos de branco bebendo leite.
Laranja Mecânica – Warner Bros.

Porém, esse sadismo da gangue aliado à direção visceral e completamente discursiva de Kubrick tornou o filme uma obra de violência gratuita e sem propósito para grande parte do público da época, incluindo o autor do livro original, Anthony Burgess.

Mais recentemente, uma série seguiu mais de uma vez por esse caminho, e acabou gerando polêmicas muito mais perigosas e sérias. 13 Reasons Why abordou de forma inteligente o desenvolvimento da depressão e a visão de alguém que se encontra nessa situação ao longo de sua primeira temporada, mas exagerou na exibição de um suicídio extremamente detalhado e exibido muito graficamente. Após essa exibição, a taxa de suicídio entre os adolescentes americanos cresceu consideravelmente.

Já em sua segunda temporada, a série mergulha ainda mais na violência gratuita e sem propósito ao mostrar um grupo violentando sexualmente um estudante no banheiro, e piorando ainda mais essa situação ao transformar a vítima em um atirador dentro de um colégio, situação delicadíssima e recorrente nos Estados Unidos. Como se não bastasse, o segundo ano da série termina com outro adolescente se colocando à frente do atirador para impedir sua ação, algo completamente perigoso e fora de qualquer recomendação em situações do tipo.

Personagens principais conversando em meio a outras pessoas.
13 Reasons Why – Netflix

Se formos analisar, todas as situações citadas acima são questões sociais importantes e realmente relevantes. Então, qual o problema em mostrá-las dessa forma? O discurso.

Quando conta uma história de causa e efeito, os realizadores precisam deixar clara sua intenção. Por mais óbvio que possa parecer, mostrar determinada situação é diferente de debatê-la.

Em Laranja Mecânica, o cinismo de Kubrick abre interpretação para a glorificação da violência e do choque. Já em 13 Reasons Why, a pretensão de dar novas temporadas ao programa leva os roteiristas a escolherem soluções simplistas e irresponsáveis.

Então, a questão é mais simples do que pode parecer: tudo pode ser mostrado, desde que a intenção esteja indicada e não simplifique ou justifique comportamentos nocivos.

Em casos tão perigosos, é claro que a obra não tem obrigação de escancarar sua intenção o tempo todo, e nem de fazer isso de forma óbvia. Porém, o audiovisual permite muito mais do que o óbvio, e uma mensagem pode ser transmitida em diversas camadas, mostrando violência e toxicidade, mas sem esquecer de pontuar os perigos dos caminhos escolhidos por determinados personagens.

Em resumo, o discurso não pode ser um gatilho de comportamentos perigosos, mas sim uma cautionary tale (conto preventivo).

Coringa ainda vai estrear e não parece ser esse o caso do filme, mas isso é assunto pra depois. O importante aqui é entender que não é a censura que vai coibir a propagação de um discurso vazio e irresponsável, e sim a capacidade de uma obra de tornar visível sua intenção.

Confira o Trailer:

Coringa | Trailer

Conteúdo Relacionado