Sintonia e a quebrada nua e crua

Série produzida por KondZilla dá uma nova cara às produções da periferia

11/10/2019 às 12:00hs

Sintonia estreou há dois meses, e mesmo gostando muito do que vi, não havia escrito nada sobre. Hoje sinto necessidade de dar minha opinião, porque são raras as vezes em que a quebrada ganha voz e destaque sem ser marginalizada gratuitamente ou estereotipada.

Eu, talvez você, e provavelmente a maior parte das pessoas que você conhece cresceu na periferia. Não precisa ser morador da favela pra saber minimamente como é a realidade dos bairros pobres de São Paulo e do Brasil.

Talvez por conta dessa convivência, seja tão difícil reconhecer a quebrada representada em grande parte das novelas, filmes e a maioria dos materiais mainstream produzidos nesse Brasilzão de meu Deus. Isso porque, na maioria das vezes, as interpretações e adaptações são altamente escrachadas e cheias de estereótipo. Não há verdade nenhuma ali, apenas a ideia de representar o que não se conhece de fato. 

KondZilla então deu a ideia, e ajudou a Netflix a produzir o que talvez seja a série jovem mais importante socialmente dos últimos anos do Brasil. Claro, a gente não pode esquecer de 3%, série nacional cheia de crítica social e política, mas que por sua natureza distópica, acaba não traduzindo a mensagem para todos os públicos.

Sintonia é então, acima de tudo, a realidade da favela da forma mais fiel possível, não só por respeitar a realidade, mas por retratar as situações com uma verdade impressionante, dos dilemas comuns até as escolhas mais difíceis. 

Ter 3 protagonistas favorece em muito a narrativa, que amarra 3 histórias em uma só, mas que se completam em uma espiral de decisões e ambições. MC Doni (MC Jottapê), Nando (Christian Malheiros) e Rita (Bruna Mascarenhas) são três amigos de infância que seguem unidos na juventude, e mesmo que cada um tenha escolhido um caminho diferente, as intenções são parecidas: crescer, seja lá onde for. 

Apesar de extremamente válido, o arco de Rita é o maior prejudicado nessa temporada, em parte, pela compreensível inexperiência da atriz estreante, mas que não compromete o restante. Por outro lado, as ambições da personagem se definem no meio da temporada, e não evoluem a partir daí. 

O foco então se volta para os outros dois protagonistas, que apesar de amigos, mostram dois lados da mesma moeda quando se trata de ascensão social na favela. Enquanto Doni cresce e começa a ganhar respeito no Funk, Nando faz seu nome no crime, mesmo enfrentando seu próprio conflito moral.

Além do mérito da fidelidade visual e de narrativa, Sintonia tem o trunfo de mostrar a ascensão de um jovem no crime organizado, tomando decisões questionáveis, mas, ainda assim, cativando o público.

Nando não é má pessoa, mas toma decisões muito ruins, e mesmo assim, nós seguimos a seu lado e prendendo o ar sempre que ele entra nas reuniões da organização criminosa. Fato é que para entender essas escolhas, precisamos mudar nossa forma de enxergar sua realidade. É parar de olhar de fora e começar a entender o contexto. Sintonia faz exatamente esse serviço. A contextualização da realidade do morro, onde mesmo que existam opções, muitas vezes só se enxerga um caminho, e isso, queira ou não, não define sempre bondade e maldade. As coisas são como são, e as pessoas tomam decisões ruins. Cabe a nós, como sociedade, não só entender, como incluir. Todo mundo.

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