Tarantino além da violência

08/10/2019 às 12:00hs
Quentin Tarantino, diretor de Cinema

Eu sempre achei meio esquisito como a maioria dos diretores não têm muito um estilo reconhecível. Em grande parte, os caras são basicamente diretores de aluguel, que servem aos propósitos e execução do estúdio, sem que sua personalidade transpareça. 

Isso não é exatamente um problema sempre, já que boa parte dos filmes precisa ser genérico pra funcionar com descompromisso. Se todos os filmes de ação discutissem temas mais profundos ou deixassem aberta uma discussão, não seriam exatamente filmes de ação. 

É por isso que sobra pra outros diretores imprimir sua forma estilosa de fazer cinema, como Martin Scorsese e suas discussões morais a respeito dos criminosos e seus motivos. David Fincher põe um ar descrente e frio em seus filmes que, ao contrário do que possa parecer, gera mais interesse ainda em chegar ao desfecho da situação incômoda apresentada. 

Porém, pra mim, ninguém faz cinema como Quentin Tarantino. Em quase todos os 9 filmes do diretor, a violência extrema encontra lugar para encaixar a crítica e o sadismo cinematográfico. Cenas como a batalha monumental de Beatrix Kiddo (Uma Thurman) em Kill Bill e os barris de sangue derramados por ela dão poder e protagonismo a uma personagem que já foi abusada e quase morta. Tarantino iniciou, assim um movimento involuntário na discussão do protagonismo feminino no cinema de ação. Isso porque, mesmo cheios de violência, talvez apenas Kill Bill seja um filme de ação do diretor.

A linguagem sangrenta é uma das marcas do cara, mas não é a única e nem de longe a melhor. Tarantino tem uma habilidade gigantesca com diálogos crus e reais, como a cena em que Jules (Samuel L. Jackson) e Vincent (John Travolta) batem papo no carro sobre hambúrgueres, e isso ao mesmo tempo demonstra a visão de mundo de cada um e seus planos pro futuro. Não precisa de didatismo para apresentar personagens, e a melhor forma de nos fazer entender a psique das pessoas por trás daquelas histórias é através dos diálogos que fogem da estrutura clássica expositiva. 

É meio louco como a maioria dos personagens criados pelo Tarantino não revelam praticamente nada sobre seu passado, mas ainda assim têm uma profundidade absurda. Em Cães de Aluguel, tudo que sabemos sobre a maioria dos personagens está resumido no diálogo do restaurante, que nada tem a ver com o roubo. Mesmo assim, a personalidade de cada um é definida ali de forma muito clara e direta, mesmo que sem o didatismo comum em filmes que querem resolver sua premissa em 15 minutos.
Não tem nada que facilite mais um roteiro do que o velho diálogo “eu sabia que te trazer aqui porque a sua vó morreu duas semanas atrás e você está deprimido não uma era boa ideia”. Mas aí que mora parte do brilhantismo dos roteiros do Tio Taranta Tarantino. As histórias não só fogem do óbvio, como muitas vezes parecem estar nos fazendo olhar pra algo insignificante, mas que na verdade é um desenvolvimento central dos personagens.

A autoralidade é algo que sempre deve ser destacada nos diretores, mesmo que seus filmes dividam opiniões. Mas esse não é o caso do nosso Samuel Rosa com grife Quentin, já que o estilo dele é completamente reconhecível, mas nem sempre com as mesmas mensagens embutidas. Ele pode ser sarcástico, florear diálogos e até pesar a mão em alguns momentos, mas se tem uma coisa que Tarantino não é, essa coisa é óbvio.

Essa provavelmente é uma matéria que deve se repetir em alguns anos, quando ele se aposentar (ou não) após seu décimo filme. Por isso, aproveite que o diretor tem poucos (e excelentes) filmes, e comece sua imersão no cinema cabeçudo da maneira mais sanguinolenta e verborrágica que se pode.

ASSISTA AO TRAILER DE “ERA UMA VEZ EM…HOLLYWOOD”

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