A Forma da Água | Crítica

Del Toro usa o visual para jogar luz em mais uma história estranha e bonita

1 fev 2018

Identidade é algo difícil de ser conquistado pelos diretores de cinema. Seja pelo método genérico da maioria ou por imposição dos estúdios, a maioria das obras chega pasteurizada para o público e com pouca personalidade de seu diretor, sempre com a mão pesada dos produtores que visam o lucro.

Poucos são os que conseguem sair da mesmice e convencer o estúdio a abraçar a sua ideia. Guillermo Del Toro é um desses caras. Mas ao contrário de outros diretores prestigiados em Hollywood hoje, o mexicano varia muito no gênero de seus filmes, que vão de ações descabidas e sangrentas a dramas de época cheios de significado.

A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) é um filme do diretor que não se enquadra perfeitamente em nenhuma categoria, mas ao mesmo tempo, cabe direitinho dentro da obra do cineasta.

A história aborda a relação entre a faxineira muda Elisa Esposito (Sally Hawkins, indicada ao Oscar pelo papel) e uma criatura anfíbia (Doug Jones) que é prisoneira do local de trabalho da moça, onde sofre tortura e passa por experimentos em meio ao fervor da Guerra Fria. Elisa se apaixona pela criatura, e decide salvá-la das mãos do governo, especialmente do inescrupuloso Richard Strickland (Michael Shannon).

Del Toro sempre foi um diretor inventivo, principalmente quando se trata de design de criaturas, e aqui não está diferente. Apesar de assustadora, a criatura tem olhos expressivos e cativantes, e a interpretação precisa de Doug Jones, transmite exatamente a fragilidade e inocência que precisam ser passadas ao espectador. Sally Hawkins, por sua vez, trabalha com excelência, usando a limitação de sua personagem como uma escada para sua interpretação, merecedora sim da indicação que recebeu ao Oscar.

O visual fantástico, unido à fotografia amarelada em sua maior parte, dão a sensação de estarmos vendo um filme rodado nos anos 50, e a trama trata de reforçar a experiência com cenas sempre focadas em expressões físicas e edição ultrapassada, mas que serve pra essa proposta.

Apesar de não parecer inicialmente, o filme esconde em sua história mensagens muito atuais, como o racismo velado (e as vezes nem tanto) que tira as pessoas de alguns ambientes e as joga em outros ao mesmo tempo, a homofobia que remove a credibilidade de sua vítima e principalmente o machismo.

Estar acima das mulheres e até dos subordinados parece uma obsessão de Strickland, e Shannon é certeiro em fazer do vilão alguém realmente detestável e com um senso de honra esquisito, que o faz passar por cima de qualquer um para cumprir seu objetivo e missão na cadeia de comando.

O romance, apesar de absurdo, é tão natural e mostrado de uma forma tão delicada que é fácil se relacionar com o casal e mais fácil ainda perceber o quanto Elisa é, mais do que a criatura, um peixe fora d’água.

Em resumo, A Forma da Água alia todas as qualidade de Del Toro em um filme só. Design de produção, roteiro, narrativa, boas atuações, e o principal, dessa vez, tudo isso foi usado pra discutir o verdadeiro monstro do mundo atual: o preconceito.

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