Bingo: O Rei das Manhãs | Crítica

Filme foi o pré-candidato brasileiro ao Oscar de melhor filme estrangeiro

29 dez 2017

Os anos 80 têm sido inspiração de diversos materiais lançados nos últimos anos, nos trazendo pérolas como Stranger Things, que se passa na época, e Guardiões da Galáxia, que bebe diretamente da década para desenvolver seu visual e personagens. Mesmo assim, pouco se via dos materiais nacionais inspirados nesse período cultural tão cheio de exageros. Bingo: O Rei das Manhãs é uma das primeiras obras dessa nova leva que ostenta com orgulho a fonte de onde bebe.

Apesar de se a história se passar originalmente nos anos 80, o filme poderia fugir dos estereótipos e entregar uma história focada em seu drama, ignorando os contextos da época. Felizmente, Daniel Rezende (montador de Cidade de Deus) enxerga nesse visual um holofote para iluminar a trama.

Baseado na vida de Arlindo Barreto, um dos atores a dar vida ao palhaço Bozo no Brasil, o filme conta a ascensão e queda de Augusto Mendes (Vladmir Brichta), que é tão obcecado pelos holofotes quanto sua mãe, Marta Mendes (Ana Lúcia Torres), que já foi uma famosa atriz e agora vive no marasmo. O problema é que a fama transforma Augusto de um pai amoroso e atencioso a um rockstar sem limites, cercado sempre de drogas, orgias e bebidas. No tempo que sobra, Augusto vive Bingo nas manhãs da TV aberta, quebrando vários recordes e tabus da mídia brasileira.

A história poderia ser apenas mais uma história a la Ícaro, que voou perto demais do sol e acabou queimado, mas Rezende trata seu filme com um certo cinismo, olhando para a trajetória do protagonista mais como um erro de percurso do que como uma falha de caráter. Isso é mostrado desde o começo, quando o ótimo Vladmir Brichta entrega um personagem desbocado, cheio de confiança e com coragem de ousar até em momentos onde outras pessoas ficariam mais contidas. O carisma do cara funciona e isso nos prende a ele, e mesmo sabendo onde a história vai, queremos que ele se dê bem.

Rezende sabe conduzir os atores dentro desse mesmo cinismo, e alguns deles são caricaturas propositais do que era o showbiz do Brasil oitentista. O filme porém decai um pouco em sua transição final, quando apela de um jeito bem forçado para o drama familiar, sem preparar o clima anteriormente. O filme se acerta novamente após isso, felizmente.

É surpreendente ver um filme nacional ousando em ângulos de câmera, indo além das mais do que datadas câmeras de novela vistas frequentemente nas nossas produções. Daniel Rezende enxerga também como montador, e sabe exatamente como usar cada corte de suas cenas. Em algumas cenas, os diretores normalmente apenas cortariam e passariam adiante, e o diretor aqui apenas deixa a câmera rodando, quase que uma pausa para a reflexão antes da cena seguinte.

É normal, e o objetivo de Bingo: O Rei das Manhãs é, mais do que tudo, entreter. Mas dentro dessa capa de nostalgia, malícia e exageros, a mensagem é realmente de reflexão: o quanto a fama pode enlouquecer uma pessoa? Augusto/Arlindo mostram isso, e mostram também que o nosso pior inimigo é, na maioria dos casos, nosso próprio ego.

%d blogueiros gostam disto: