RetroVision | Cães de Guerra

Um filme currículo de Todd Philips para Scorsese

5 set 2017

Um dos subgêneros que mais cresce recentemente em Hollywood é a trama criminosa baseada em fatos reais, que tem em O Lobo de Wall StreetSem Dor, Sem Ganho alguns dos expoentes dessa década. Séries como NarcosAmerican Crime Story também evidenciam essa tendência.

A glamourização do crime do colarinho branco e os altos ganhos sem violência tendem sempre a atrair curiosidade do público, vide o próprio Lobo de Wall Street, que trazia a história de fraude multimilionária encabeçada por Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), contando sua ascensão e queda. O filme dirigido pelo gênio Martin Scorsese usa seu protagonista como narrador, e assim, mesmo por trás de toda loucura e inconsequência do personagem, o aproxima da percepção do público e o humaniza.

Conhecido principalmente pela trilogia Se Beber, Não Case!Todd Phillips é um diretor que mostrava já nas comédias um bom timing na direção das piadas e um cuidado com fotografia, além de trabalhar bem os diálogos. Ao ver o gênero de Cães de Guerra (2016) definido como comédia, confesso que esperava pouco da trama, apesar de lidar com uma história interessante e ter como protagonistas os sempre ótimos Jonah Hill (Anjos da Lei, Moneyball)Miles Teller (Whiplash, O Maravilhoso Agora).

A história, passada em meio à guerra do Iraque, mostra o jovem David Packouz (Miles Teller) frustrado com uma vida medíocre como massoterapeuta de homens de meia idade. Ao reencontrar seu amigo de infância Efraim, David descobre o mundo da venda de armas, e entra no negócio com o amigo, passando a caçar pequenas licitações do governo americano que renderiam pequenas fortunas aos dois.

A direção de Phillips é claramente focada no humor, que sempre foi seu ponto forte, e a escolha de protagonistas tão versáteis evidencia a aptidão do roteiro em flutuar entre a comédia e o drama. Um tema tão delicado quanto a guerra e os seus reflexos no povo norte americano são diluídos com algumas piadas que claramente satirizam esse comportamento nacionalista dos yankees. Efraim é claramente o estereótipo do americano obcecado pelo American Dream e usa essa visão para demonstrar o sentimento de supremacia contra os árabes durante a guerra, ainda que um pouco contido.

Porém mais interessante que a crítica social contida ali é a linha que divide os personagens. Enquanto Efraim é esse porralôca obstinado por dinheiro, drogas e mulheres, David esbanja seu dinheiro em gastos com a família e experimentando a sensação mesmo que momentânea de sucesso. Essa aparente “benevolência” do personagem ganha ainda mais potência com a sua narração, assim como DiCaprio em “Lobo”.

A trama do filme já era parecida por natureza com o filme de Scorsese, mas Phillips abraça a ideia e mergulha na fonte, tratando seu protagonista com honestidade (não tanto quanto Martin, claro) sem precisar apelar para o sentimentalismo. Os dramas são orgânicos, reais, mas sem o peso de uma condução focada na tragédia da guerra.

Todd está envolvido no projeto de um novo filme do Coringa, contando sua história de origem e com produção de Scorsese, e Cães de Guerra soa como um currículo audiovisual do diretor ao mestre. Apesar de faltar ao filme alguma urgência ao seu final, o potencial do diretor em projetos além da comédia começam a ser testados, e se tiver a condução firme de Martin em um filme de máfia do Palhaço do Crime, há grandes possibilidades de um filme diferente de tudo que já vimos.

Jonah Hill já foi duas vezes indicado ao Oscar ( por Moneyball O Lobo de Wall Street), e aqui mostra mais uma vez a sua capacidade de interpretar diferentes tipos de personagens e ainda assim encontrar particularidades para eles. O cinismo e o jogo de cintura do ator dão ao personagem uma profundidade importante, e seus momentos de explosão também refletem essa personalidade egocêntrica.

A atuação de Miles Teller é mais contida, porém entrega o que é exigido dele, já que seu personagem é como o freio moral de Efraim em alguns momentos, mas que ainda assim admira a coragem e ousadia do amigo. Algo como um irmão mais novo e inexperiente. Quando exigido, Miles entrega a emoção e a tensão necessárias para comprarmos sua briga. Funciona bem.

Cães de Guerra é uma interpretação cínica de um tema sério, mas sem beirar o absurdo ou a indiferença pela gravidade. Todd Phillips se mostra capaz de contar uma história reflexiva com bom humor, e com muitas homenagens ao clássico Scarface, entrega um filme sem barrigas e subtextos desnecessários. Mais um ponto pra esse subgênero.

 

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