Três Anúncios Para um Crime | Crítica

O efeito dominó perfeito para o Oscar

14 fev 2018

Quando se trata de cinema, algumas fórmulas tendem a se repetir o tempo todo. A jornada do herói, o amor mal resolvido, a lição ao fim da aventura, e o nosso tema de agora: causa e efeito. Consequências são quase sempre o que move a trama em direção a uma resolução. Porém, às vezes, as consequências só trazem mais consequências.

Três Anúncios Para um Crime conta a história de Mildred Hayes (Frances McDormand) uma mãe que está inconformada com a ineficiência da polícia e do Delegado Willoughby (Woody Harrelson) em solucionar o horrível assassinato de sua filha. Para tentar reacender o caso e a busca por respostas, Mildred aluga três Outdoors na estrada em que sua filha foi morta, com mensagens sobre o caso, e chama a atenção de toda a mídia e da população da pequena cidade de Ebbing, no Missouri.

O estereótipo sulista está aqui sendo utilizado aqui quase que como uma caricatura do comportamento preconceituoso da região. Policiais que parecem ter saído de um dos trocentos Loucademia de Polícia, agridem as pessoas apenas por não gostarem delas ou de sua cor (soa familiar?). Fora isso, o sentimento da cidade é de repúdio à atitude de Mildred, que parece questionar a autoridade e competência do respeitado e querido delegado da cidade.

Esse comportamento esquisito dos residentes da cidade faz a mãe parecer a única lúcida em meio à todos, mesmo sendo profundamente perturbada também. O diretor e roteirista Martin McDonagh flerta com a possibilidade de a causa (outdoors) gerar efeitos até a solução do caso, o que transformaria a história em mais um relato tocante da obstinação de uma mãe em busca de justiça por suas crias. Bom, essa não é a intenção.

Tudo na cidade de Ebbing soa quase fantasioso, principalmente suas figuras de poder e atitudes em momentos de crise. Jason Dixon (Sam Rockwell) é um detestável policial do distrito que parece ter saído direto de um filme do Tarantino onde os personagens são exagerados para destacar seu pior lado. Essa é a sensação de incômodo que Martin quer deixar com a gente, a vontade de solucionar não só o crime, mas de mudar a cabeça dessa cidade.

Não se engane, a sensação se segue até o final, e serve mais para questionar o papel da população em casos parecidos com essa ficção do que necessariamente para satisfazer a sede de justiça que a situação inicial pedia.

Ao fim do filme, além das sensacionais atuações de Frances McDormand e Sam Rockwell, a sensação que predomina é a de que a vida é bem mais dura que a ficção, e não é um pouco de poesia em uma atitude inspirada como alugar três Outdoors que vai solucionar as coisas. A solução, às vezes, não resolve nada de verdade.

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